Síndrome do Manguito Rotador: Perícia Médica e Direitos do Trabalhador

Síndrome do manguito rotador (CID M75.1) na perícia: anatomia, lesões parciais e completas, exames de imagem, indicação cirúrgica e nexo causal ocupacional.

Publicado em 2026-06-01 · 11 min de leitura · WDoctors Laudos

TL;DR: A Síndrome do Manguito Rotador (CID M75.1) é uma das DORTs mais frequentes (~15% das perícias ortopédicas). Engloba tendinopatias e lesões parciais ou completas dos tendões do manguito (supraespinhoso, infraespinhoso, subescapular, redondo menor). Diagnóstico por USG ou RM. Frequente reconhecimento como ocupacional via Lista B ou nexo individual.

Anatomia do manguito rotador

O manguito rotador é um conjunto de 4 músculos que estabilizam e movem o ombro:

MúsculoInserçãoFunção principal
SupraespinhosoTubérculo maior do úmeroAbdução inicial (0-30°)
InfraespinhosoTubérculo maiorRotação lateral
SubescapularTubérculo menorRotação medial
Redondo menorTubérculo maiorRotação lateral

Os tendões formam uma "manga" sobre a cabeça do úmero — daí o nome.

Fisiopatologia

Mecanismos

  1. Impacto subacromial — atrito do supraespinhoso contra o acrômio
  2. Sobrecarga repetitiva — microtraumas
  3. Trauma agudo — queda, esforço extremo
  4. Degeneração — relacionada à idade
  5. Calcificação — depósitos de cálcio nos tendões

Evolução

  • Inflamação → tendinopatia → lesão parcial → lesão completa → artropatia

Classificação das lesões

Tendinopatia

  • Sem ruptura
  • Dor + alteração no exame de imagem
  • Pode ser inflamatória, degenerativa, calcificada

Lesão parcial

  • Ruptura parcial das fibras
  • Bursal (superfície superior) ou articular (inferior)
  • Manguito ainda funcional

Lesão completa

  • Ruptura transmural
  • Tamanho: pequena (<1cm), média (1-3cm), grande (3-5cm), maciça (>5cm)
  • Retração tendínea

Artropatia do manguito (estágio terminal)

  • Lesões maciças irreparáveis
  • Migração superior da cabeça do úmero
  • Artrose secundária

Códigos CID-10

  • M75.1 — Síndrome do manguito rotador
  • M75.3 — Tendinite calcificada do ombro
  • M75.4 — Síndrome do impacto do ombro
  • M75.0 — Capsulite adesiva do ombro (ombro congelado)
  • M75.5 — Bursite do ombro

Atividades de risco

AtividadeMecanismo
FrigoríficosMovimentos repetidos do ombro
Construção civilTrabalho com braços acima da cabeça
PintoresPostura prolongada de elevação
EletricistasTrabalho elevado
GarçonsCarregar bandejas
Profissionais de saúdeMobilização de pacientes
Operadores de máquinasEsforço de tração
Esportes: arremesso, natação, vôleiMovimento aéreo repetido

NTEP em manguito rotador

A Lista B do Decreto 3.048/1999 correlaciona M75.1 com:

CIDCNAENTEP
M75.110.12-1 (Frigoríficos)Sim
M75.141-43 (Construção civil)Sim
M75.186.XX (Saúde)Sim

Diagnóstico

Sintomas

  • Dor noturna (especialmente ao deitar do lado afetado)
  • Dor à elevação do braço
  • Limitação para atividades acima da cabeça
  • Fraqueza para abdução, rotação
  • Crepitação ao mover

Exame físico

Inspeção

  • Atrofia do supraespinhoso (fossa supraespinhosa)
  • Atrofia do infraespinhoso
  • Posição antálgica

Mobilidade ativa

  • Avaliar abdução, flexão, rotações
  • Comparar com lado contralateral

Mobilidade passiva

  • Geralmente preservada (em fase inicial)
  • Limitada na capsulite

Manobras provocativas

Sinal de Neer (impacto)
  • Elevação passiva do braço com escapula estabilizada
  • Positivo: dor
Hawkins-Kennedy
  • Abdução 90°, flexão 90°, rotação medial
  • Positivo: dor
Jobe (supraespinhoso)
  • "Empty can" — abdução 90°, polegar para baixo, força contra resistência
  • Positivo: dor ou fraqueza = lesão do supraespinhoso
Sinal do Pão Quente (Drop Sign)
  • Solta-se passivamente o braço da posição elevada
  • Positivo: queda = ruptura do supraespinhoso
Patte (infraespinhoso)
  • Rotação lateral contra resistência
  • Positivo: fraqueza = lesão do infraespinhoso
Belly Press / Lift-off (subescapular)
  • Mão na barriga, força para empurrar
  • Positivo: incapacidade = lesão do subescapular
Sinal do Bicho-Preguiça (Bear Hug)
  • Mão no ombro oposto, força para empurrar
  • Positivo: fraqueza = subescapular

Exames complementares

Ultrassom (USG)

  • Excelente para avaliar tendões
  • Detecta tendinopatias, calcificações, lesões parciais e totais
  • Dinâmico
  • Operador-dependente

Ressonância magnética (RM)

  • Padrão-ouro
  • Visualização completa do manguito
  • Define tamanho e tipo de ruptura
  • Avalia retração tendínea, qualidade muscular (degeneração gordurosa)

Artrorressonância

  • RM com contraste intra-articular
  • Maior sensibilidade para lesões parciais articulares

Radiografia

  • Avalia ossos (consequências indiretas)
  • Migração superior da cabeça do úmero (avançado)
  • Calcificações periarticulares

Tratamento

Conservador

  • AINE
  • Fisioterapia (alongamento, fortalecimento, propriocepção)
  • Infiltração com corticoide ou ácido hialurônico
  • Crioterapia

Intervencionista

  • Aspiração de calcificações (calcificada)
  • Ondas de choque
  • PRP

Cirúrgico

Indicações:

  • Lesão completa em paciente jovem
  • Falha conservador em paciente ativo
  • Lesão traumática aguda
  • Lesão progressiva

Técnicas:

  • Artroscopia (padrão atual)
  • Reparo aberto (em casos selecionados)
  • Acromioplastia (alívio do impacto)
  • Artroplastia reversa (lesões maciças irreparáveis)

Caracterização da incapacidade

Total temporária

  • Pós-cirurgia
  • Lesão completa em fase aguda

Parcial permanente

  • Sequela após reparo
  • Limitação para elevação e carga
  • Restrição funcional

Total permanente

  • Lesões maciças irreparáveis
  • Artropatia do manguito
  • Reinfecção pós-cirúrgica

Quesitos típicos

  1. O periciando apresenta lesão do manguito? Qual estrutura?
  2. Tendinopatia, lesão parcial ou completa?
  3. As manobras provocativas são positivas?
  4. USG/RM confirmam?
  5. Há nexo causal com atividade laboral?
  6. Aplica-se NTEP?
  7. Há indicação cirúrgica?
  8. Há incapacidade? Tipo e duração?

Particularidades em perícia

Manguito vs ombro congelado

Distinguir:

  • Manguito: mobilidade ativa restrita, passiva preservada
  • Capsulite: ambas restritas

Lesão aguda vs degenerativa

Em perícia, distinguir é fundamental para nexo:

  • Aguda: trauma identificável, perda súbita de função
  • Degenerativa: insidiosa, mais comum em idosos

Lesão dominante vs não-dominante

  • Lesão bilateral é mais incapacitante e sugere DORT
  • Lesão unilateral no membro dominante é típica de DORT
  • Lesão no não-dominante pode sugerir trauma

Jurisprudência

TribunalTeseAno
TST, RR 100XXXLesão de manguito em pintor = doença ocupacional2024
STJ, REsp 1.88X.XXXNTEP aplicável em manguito + frigorífico2024
TRF-4, AC 5015XXXReabilitação em paciente jovem com reparo bem-sucedido2025
TST, RR 110XXXEstabilidade aplicável em manguito bilateral2025

Como o WDoctors apoia

A plataforma oferece:

  • Template específico para manguito com manobras integradas
  • Análise CID × CNAE para Lista B
  • Biblioteca de classificações de lesões (Snyder, Patte)
  • Cronologia automática de tratamentos

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Publicado em 1 de junho de 2026 por WDoctors Laudos