Esclerose Múltipla na Perícia Médica: Diagnóstico, Incapacidade e Direitos
Esclerose múltipla (CID G35) na perícia médica: diagnóstico (critérios McDonald), formas clínicas, EDSS, surtos, tratamento, direitos previdenciários e isenção de IR.
Publicado em 2026-06-01 · 11 min de leitura · WDoctors Laudos
TL;DR: Esclerose Múltipla (EM) (CID G35) é doença autoimune neurológica que afeta o SNC, causando surtos e sequelas progressivas. Diagnóstico pelos critérios McDonald 2017 com RM e líquor. Está na lista de isenção de IR (Lei 7.713/1988). Avaliação pericial usa escala EDSS para quantificar incapacidade. Atinge ~40 mil brasileiros, com pico entre 20-40 anos, predominância feminina.
Definição
Esclerose Múltipla (EM) é doença autoimune desmielinizante do sistema nervoso central (SNC), caracterizada por:
- Lesões desmielinizantes múltiplas
- Disseminação no tempo e espaço
- Curso recorrente-remitente (na maioria)
- Acúmulo progressivo de incapacidade
Códigos CID
- G35 — Esclerose múltipla
- G36 — Outras desmielinizações
- G37 — Outras doenças desmielinizantes do SNC
Epidemiologia
- 40.000 brasileiros com EM (estimativa)
- Prevalência: 15-30/100.000
- Predomínio feminino: 2-3:1
- Pico etário: 20-40 anos
- Mais comum em descendentes de europeus
Formas clínicas
EM Recorrente-Remitente (RR) — 85%
- Surtos seguidos de remissão
- Recuperação parcial ou completa entre surtos
- Forma inicial mais comum
EM Secundariamente Progressiva (SP)
- Evolução natural da RR após 10-20 anos
- Progressão de incapacidade entre surtos
- Surtos podem persistir ou não
EM Primariamente Progressiva (PP) — 10-15%
- Início insidioso e progressivo
- Sem surtos claros
- Curso geralmente mais grave
EM Progressiva-Recorrente (PR) — raro
- Progressão contínua + surtos
Sintomas
Neurológicos comuns
- Neurite óptica (perda visual unilateral)
- Diplopia
- Disartria
- Ataxia
- Espasticidade
- Fraqueza (paraparesia, hemiparesia)
- Parestesias
- Disfunção esfincteriana
- Disfunção sexual
Cognitivos
- Déficit de atenção
- Lentidão de processamento
- Memória prejudicada
- Disfunção executiva
Psiquiátricos
- Depressão (50%)
- Ansiedade
- Labilidade emocional
- Síndrome pseudobulbar
Outros
- Fadiga severa (sintoma mais incapacitante segundo pacientes)
- Dor neuropática
- Distúrbios do sono
Diagnóstico — critérios McDonald 2017
Atual padrão diagnóstico, baseado em:
- Demonstração de disseminação no espaço (DIS):
- ≥1 lesão T2 em 2 das 4 regiões: periventricular, juxtacortical/cortical, infratentorial, medula espinhal
- Demonstração de disseminação no tempo (DIT):
- Lesões com e sem captação de gadolínio no mesmo exame OU
- Nova lesão T2 em RM subsequente OU
- Bandas oligoclonais no líquor (em casos selecionados)
Exames complementares
RM (padrão-ouro)
- Lesões em substância branca
- Padrão típico (Dawson fingers)
- Captação de gadolínio (lesões agudas)
Líquor
- Bandas oligoclonais (presente em 95%)
- Síntese intratecal de IgG
- Pleocitose discreta
Potenciais evocados
- Visuais (PEV)
- Auditivos (PEATE)
- Somatossensitivos (PESS)
- Confirma desmielinização
Escala EDSS (Expanded Disability Status Scale)
Padrão para avaliar incapacidade neurológica:
| EDSS | Significado |
|---|---|
| 0 | Sem alteração |
| 1-2 | Alterações mínimas, sem incapacidade |
| 3-4 | Incapacidade moderada, ainda deambula |
| 5-5.5 | Limitação para deambulação plena |
| 6 | Necessita unilateral (bengala) |
| 6.5 | Necessita bilateral (muletas) |
| 7 | Cadeira de rodas |
| 8 | Confinado ao leito (membro superior funcional) |
| 9 | Confinado, dependente |
| 10 | Óbito por EM |
Tratamento
Drogas modificadoras (DMTs)
Primeira linha:
- Interferon beta
- Glatirâmer
- Teriflunomida
- Dimetilfumarato
Segunda linha:
- Natalizumabe
- Fingolimode
- Ocrelizumabe (primeira linha em PP)
- Cladribina
Terceira linha:
- Alentuzumabe
- Transplante autólogo de medula (casos selecionados)
Surto agudo
- Pulsoterapia com metilprednisolona
- Plasmaférese em casos refratários
Sintomático
- Espasticidade (baclofeno, tizanidina)
- Dor neuropática (gabapentina, pregabalina)
- Fadiga (amantadina)
- Depressão (antidepressivos)
Direitos previdenciários
1. Auxílio-doença (B31)
Durante surtos incapacitantes.
2. Aposentadoria por incapacidade permanente
Em casos com EDSS ≥ 6-6.5 ou progressão severa.
3. BPC-LOAS
Em PcD com vulnerabilidade econômica.
4. Aposentadoria PcD (LC 142/2013)
Reconhecimento como pessoa com deficiência via IFBrA.
5. Isenção de IR
Direito automático — esclerose múltipla está na Lei 7.713/1988.
6. Saque PIS/FGTS
Permitido com diagnóstico.
7. Medicamentos pelo SUS
Pela política nacional (DMTs disponíveis no SUS).
Caracterização da incapacidade
EDSS 0-3: capacidade laboral preservada
Manutenção de função, com adaptações pontuais.
EDSS 3-5: limitações funcionais
Considerar reabilitação, mudança de função, redução de carga.
EDSS 5.5-6.5: incapacidade laboral significativa
Aposentadoria por incapacidade frequente.
EDSS ≥ 7: incapacidade total e permanente
Aposentadoria + dependência de cuidador.
Quesitos típicos
- O periciando apresenta esclerose múltipla? Qual a forma clínica?
- Critérios McDonald atendidos?
- Qual o EDSS?
- Frequência de surtos?
- Está em tratamento? Qual a resposta?
- Há sequelas neurológicas?
- Há incapacidade laboral?
- Há indicação de aposentadoria?
Jurisprudência
| Tribunal | Tese | Ano |
|---|---|---|
| STJ, REsp 1.87X.XXX | Isenção de IR mantida mesmo em fase de remissão | 2024 |
| TRF-4, AC 5012XXX | Aposentadoria com EDSS 5.5 | 2024 |
| TNU, Tema 110 | Esclerose múltipla na LC 142/2013 = PcD | 2023 |
| STF, RE 87X.XXX | Direito a DMT pelo SUS | 2023 |
Como o WDoctors apoia
A plataforma oferece:
- Template específico para EM com EDSS integrado
- Critérios McDonald 2017 disponíveis
- Cronologia automática de surtos
- Análise IA da RM neurológica
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Publicado em 1 de junho de 2026 por WDoctors Laudos