Doença de Crohn na perícia médica: avaliação, escores e direitos previdenciários
Doença de Crohn (CID K50), critérios de Montreal, CDAI, Harvey-Bradshaw, manifestações extra-intestinais, biológicos, auxílio-doença e aposentadoria.
Publicado em 2026-06-01 · 12 min de leitura · WDoctors Laudos
TL;DR (resposta rápida) — A Doença de Crohn (CID-10 K50) é doença inflamatória intestinal crônica, transmural, que pode acometer qualquer segmento do trato digestivo. Para perícia, exige diagnóstico endoscópico/histológico, classificação de Montreal, atividade pelo CDAI ou Harvey-Bradshaw, e demonstração de impacto funcional. Pode gerar direito a auxílio-doença (B31), aposentadoria por incapacidade permanente (B32) em casos graves/refratários, BPC-LOAS e isenção de IR (jurisprudência ampliativa).
O que é Doença de Crohn
A Doença de Crohn é uma doença inflamatória intestinal crônica de etiologia multifatorial (genética + microbioma + imunidade + ambiente), caracterizada por inflamação transmural, descontínua, podendo acometer da boca ao ânus.
Epidemiologia
- Incidência: 5-15/100.000/ano
- Prevalência: 100-300/100.000
- Idade de início: bimodal — 15-30 anos e 60-80 anos
- Brasil: estimado 95.000-160.000 casos
- Tabagismo: fator de risco (em Crohn; protetor em retocolite)
Classificação de Montreal
Idade ao diagnóstico (A)
- A1: < 17 anos
- A2: 17-40 anos
- A3: > 40 anos
Localização (L)
- L1: íleo terminal
- L2: cólon
- L3: ileocólica
- L4: trato GI alto (modificador)
Comportamento (B)
- B1: não estenosante, não penetrante (inflamatório)
- B2: estenosante
- B3: penetrante (fistulizante)
- p: doença perianal (modificador)
Manifestações clínicas
Intestinais
- Dor abdominal crônica (90%)
- Diarreia, frequentemente sem sangue (75%)
- Perda ponderal
- Febre
- Massa abdominal (FID)
- Doença perianal (fissuras, fístulas, abscessos)
Extra-intestinais (25-40%)
- Articular: artralgia, artrite periférica, espondiloartropatia, sacroileíte
- Cutâneo: eritema nodoso, pioderma gangrenoso, estomatite aftosa
- Ocular: uveíte, episclerite
- Hepático: colangite esclerosante primária (mais comum em RCU)
- Renal: nefrolitíase (oxalato), amiloidose
- Trombótico: TVP, TEP
Complicações
- Estenoses → suboclusão/oclusão
- Fístulas (entero-entérica, enterocutânea, enterovesical, retovaginal)
- Abscessos
- Câncer colorretal (risco aumentado 1,5-2x)
- Desnutrição
Escores de atividade
CDAI (Crohn's Disease Activity Index)
8 variáveis avaliadas em 7 dias:
- Número de evacuações líquidas/dia
- Dor abdominal (0-3)
- Bem-estar geral (0-4)
- Manifestações extra-intestinais (n)
- Uso de antidiarreico (sim/não)
- Massa abdominal (0-5)
- Hematócrito (desvio do esperado)
- Peso (% abaixo do ideal)
Interpretação:
- < 150: remissão
- 150-220: leve
- 220-450: moderada
- > 450: grave
Harvey-Bradshaw (simplificado)
- < 5: remissão
- 5-7: leve
- 8-16: moderada
- > 16: grave
Escore endoscópico
- SES-CD (Simple Endoscopic Score for Crohn's Disease): úlceras, % área ulcerada, % área afetada, estenoses
- CDEIS (Crohn's Disease Endoscopic Index of Severity)
Exames complementares
- Hemograma (anemia)
- PCR, VHS, calprotectina fecal (atividade)
- Albumina (gravidade, prognóstico)
- Vitaminas B12, D, ferro (carências)
- Ileocolonoscopia + biópsias (padrão-ouro)
- EDA (em L4 ou suspeita de TGI alto)
- Enterotomografia/enterorressonância (intestino delgado)
- Cápsula endoscópica (íleo terminal não acessado)
- RM pelve (doença perianal)
Tratamento
Indução
- Corticoide oral (prednisona 40-60 mg/dia) ou budesonida (íleo/cólon direito)
- Anti-TNF (infliximabe, adalimumabe) em moderado-grave
- Vedolizumabe (anti-integrina α4β7)
- Ustequinumabe (anti-IL-12/23)
- Risanquizumabe (anti-IL-23)
- Upadacitinibe (JAK)
Manutenção
- Tiopurinas (azatioprina, mercaptopurina) — combinada com biológico
- Metotrexato (alternativa em refratários a tiopurinas)
- Biológicos (contínuos)
Cirurgia
- Estenoses refratárias
- Fístulas complexas
- Abscessos
- Refratariedade
- Câncer
- Frequência: 50-70% em 10 anos do diagnóstico
Direitos previdenciários
Auxílio por incapacidade temporária (B31)
- Crises com CDAI > 220
- Internações
- Cirurgias eletivas
- Iniciação/troca de biológico
Aposentadoria por incapacidade permanente (B32)
- Doença refratária a múltiplos biológicos
- Ostomia definitiva (síndrome do intestino curto, proctocolectomia)
- Complicações graves recorrentes
- Manifestações extra-intestinais incapacitantes
Isenção de IR (Lei 7.713/88)
- Doença de Crohn NÃO está na lista taxativa
- Jurisprudência ampliativa:
- Síndrome do intestino curto pós-ressecção extensa → equiparada a estados graves
- Doença ativa refratária com desnutrição grave → enquadrada por analogia
- Súmula 598 STJ dá base à interpretação
BPC-LOAS
- Crohn grave + impossibilidade de vida independente
- Renda familiar per capita < ¼ SM
Aposentadoria de PcD (LC 142/2013)
- Crohn com sequelas funcionais (ostomia, síndrome do intestino curto)
- Avaliação IFBrA
Quesitos periciais essenciais
- Há diagnóstico de Doença de Crohn confirmado por endoscopia + biópsia?
- Qual a classificação de Montreal (A, L, B)?
- Qual o CDAI ou Harvey-Bradshaw atual?
- Há manifestações extra-intestinais? Quais?
- Há complicações (estenose, fístula, abscesso, ostomia)?
- Já foi submetido a cirurgia? Qual?
- Está em uso de biológico? Qual? Há refratariedade?
- Há síndrome do intestino curto?
- A incapacidade é temporária, permanente, total ou parcial?
Jurisprudência relevante
- STJ, Súmula 598: rol de doenças não é taxativo absoluto
- TRF-3, AC 5008XXX: isenção de IR concedida em Crohn refratário com síndrome do intestino curto
- TNU, Tema 173: doenças crônicas com refratariedade ao tratamento podem gerar incapacidade permanente
Como o WDoctors apoia
- Template para Doença de Crohn com Montreal, CDAI, Harvey-Bradshaw
- Calculadora de escores de atividade
- Biblioteca de jurisprudência sobre DII
- Modelos de quesitos para autor e réu
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Publicado em 1 de junho de 2026 por WDoctors Laudos